Não sei quando foi a primeira vez que ouvi uma de suas músicas, e nem qual foi. Eu conhecia as músicas do Paul, mas quando me foi oferecido George, foi como se um portal se abrisse na minha cabeça.
George era um gênio, como seus colegas. Um gênio que se recolheu quando a banda acabou, preferiu ficar recluso, longe das grandes turnês, dedicado às coisas da alma e do espírito, às plantas e a algumas paixões, uma delas que compartilhamos, o automobilismo.
Era um grande compositor e tinha reverência pelo instrumento que tocava, o mesmo que eu toco tento tocar. Quem, senão George, poderia escrever que vê o mundo girar enquanto sua guitarra gentilmente chora? Apenas ele.
George respeitava a guitarra, respeitava as pessoas e o mundo em que viveu. Criou os grandes shows beneficentes quando tocou para as vítimas de Bangladesh. Fez Something, quem sabe a mais bela de todas as baladas. Quem, senão George, poderia escrever, sem ser piegadas, que “algo na maneira como ela se move me atrai como nenhuma outra namorada”?
Viveu e foi-se embora rapidamente, aos 58 anos, e nem adiantou pedir pra ficar. Foi conhecer my sweet Lord que ele homenageou na mais bela das orações. Hoje, faria 70 anos. O show que eu nunca vi e nunca verei. A música que eu sempre ouvi e pra sempre ouvirei. George, grande George.
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Um ano, amigo. Entrei naquela UTI, e me lembro do cheiro até hoje, e falei com você. Sua mãe, metro e meio atrás, quieta. Passei a mão na sua cabeça e tinham dito que não havia mais saída, mas eu te pedi um último esforço. “Só falta essa vitória, seu chato”, eu disse. Não sei se ouviu, acho que sim. E, se pudesse, teria dito “Não enche, Borges”.
Era a vitória que faltava. E ficou faltando. Já faz um ano e, desculpe o clichê, parece que foi ontem. Começo da manhã recebi o telefonema. Foi um dia estranho, aquele 6 de dezembro. Houve uma comoção que poucas vezes vi para alguém que não era ator famoso ou algo do gênero. Você saiu em sites, portais e blogs. Chegou a ser o assunto mais comentado do Twitter.
Foi um dia de Rock. Rocha. Menos de 24 horas depois de ter encontrado você tranquilo e em paz naquela cama de hospital, fui me despedir. Eu e mais um monte de gente. Pessoas que você conquistou na sua jornada e com seus posts. Com sua camaradagem que não conhecia limites. Você foi um daqueles poucos amigos para quem eu dei o certificado de irmão.
Não é raro que alguém solte um comentário sobre você na internet. Facebook, Twitter. Porque você foi um fenômeno de crítica e público. E faz uma falta tremenda. O amigo com quem eu falava de futebol, TV, internet, profissão, música e mulheres. Que eu aconselhava e que me aconselhava.
Parece que foi ontem [ops, clichê de novo], mas parece uma eternidade, por mais estranho que pareça. É tempo suficiente pra saber que não há um outro cara como você, velho amigo. Que fazia todo dia ser dia de rock.
Arquivada em Ale Rocha